segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Vivências na escola

Os estudos da Pedagogia neste semestre me fizeram revisitar algumas vivências que tive enquanto aluna e também nesses muitos anos como professora.
O mais desafiador foi encontrar na minha história, uma razão para eu ter escolhido ser professora. Confesso que não encontrei uma resposta definitiva. Só lembro-me da minha professora primária como uma mulher muito rígida, elegante e respeitada por toda comunidade. Eram anos de ditadura (1975), numa região onde mulheres e crianças não tinham voz, e a professora Ida era a exceção. Talvez fosse a chama da rebeldia que me fizesse querer ser professora. Ou a ambição de ser ouvida e respeitada.
Ao longo de minha trajetória estudantil encontrei os mais diversos modelos de professores. Os que lembro com mais carinho foram aqueles que conseguiram despertar em mim a paixão pela leitura e a crença de que eu também era capaz de escrever bem. Eram professores exigentes e por isso conseguiam me desafiar a ler e escrever sempre melhor. Mas eram também apaixonados por aquilo que faziam. E mais ainda, acreditavam em nós.
Penso ser essas características necessárias para ser um bom professor: desafiar os alunos, amar o que todos podem sempre fazer um pouco melhor, inclusive nós mesmos.
Experiências negativas não me lembro de nenhuma em especial. Se as tive acho que serviram para melhorar minhas aprendizagens. Sempre foi com bastante esforço, superando preconceitos, abrindo mão de algumas coisas, mas sempre ficou a sensação de que valeu a pena.
Como professora, experiências felizes e não tão felizes fazem parte do nosso dia-a-dia. Cada nova aprendizagem, cada aluno que se descobre capaz, cada novo encontro, os reencontros, as despedidas fazem dessa profissão a mais surpreendente, a mais frustrante e também a mais compensadora. Pode ser a mais estressante, mas nunca é tediosa. Não descobri exatamente o que me fez decidir professora, mas é por tudo isso que sei que foi a decisão certa.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Identidade, escola e educação do campo

   A urbanização da sociedade como consequência da industrialização provocou uma desvalorização e industrialização das comunidades que vivem no campo. Consequentemente suas práticas e saberes também sofreram um processo de desvalorização, consideradas práticas ultrapassadas e saberes não científicos.
   Ao nos referirmos à comunidades do campo estamos aos trabalhadores empregados, meiros, arredatários, pequenos proprietários, acampados, assentados, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas e povos indígenas, comunidades essas notoriamente excluídas pela sociedade por apresentarem uma identidade própria, pouco compreendida pelo " homem urbano".
   A educação do campo difere da escola rural, pois a últimas oferece uma educação na mesma modalidade daquela ofertada a aqueles que moram e estudam na área urbana.
   O objetivo da educação do campo é oferecer a essas populações uma educação específica e adequada às vivências das comunidades que oportunize a apropriação e produção do conhecimento, sem perder as identidades que as constituem.
   As Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo orientam para que essas escolas apresentem uma "concepção político pedagógica voltada para dinamizar as ligações dos seres humanos com a produção de condições de existência social na relação com a terra e o meio-ambiente". (BRASIL, 2002)
   Nesse sentido busca-se resgatar e reconstruir a cidadania dessas populações.
   Entendemos como "cidadania" a possibilidade de o indivíduo participar de forma ativa, crítica e construtivista na sociedade de que faz parte. Essa participação de dará com a tomada de consciência sobre quem se é e qual sua função na sociedade e seu real papel na comunidade em que vive.
   "Nessa perspectiva, as pessoas que vivem no campo têm direitos à educação, não apenas ao ensino" devem saber analisar, discutir,indignar-se sua cultura (Arroyo 2012).
   A apropriação da língua escrita e seu uso são essenciais para avançar na aprendizagem. No entanto não são aprendizagens espontaneadas e necessitam da parceria construída culturalmente a partir do mundo escrito no qual o indivíduo vive, já que são habilidades que precisam ser ensinadas.
   Para alfabetizar e letrar as crianças do campo precisamos considerar o seu meio e que a escrita se inicie à partir de sua própria história.

 
 

domingo, 29 de novembro de 2015

Institucionalização da infância

  De acordo com a interpretação de alguns gestores, a partir de 2016, todas as crianças que completarem quatro anos, deverão estar matriculadas e frequentando as escolas de ensino fundamental. Segundo eles, além de cumprir a determinação do plano nacional de educação, estarão oportunizando a essas crianças o pleno desenvolvimento de suas capacidades físicas, cognitivas e de socialização.
  É inegável que na sociedade pós-moderna o espaço e o tempo para as infâncias viverem como tal, são cada vez mais reduzidos. Além disso, cada vez mais entendemos a infância como um tempo de preparação para a vida adulta, e para isso a escola seria o espaço ideal. (Será?).
  No entanto, as reflexões da disciplina de "Infâncias de 0 a 10", fizeram-me levantar algumas questões que deixo aqui registradas:

  • É para serem adultas que as crianças brincam, interagem, se movimentam, procuram, perguntam...?
  • É desse tipo de espaço que elas precisam, ou mais uma vez nós, adultos racionais, estamos determinando o que é melhor para esses seres "incompletos e incapazes"?
  • Que espaço as crianças terão na escola para fazerem as próprias descobertas e se manifestarem espontaneamente?
  • Tem as escolas o espaço físico e os recursos necessários para essa faixa etária tão singular para essa faixa etária tão singular e ao mesmo tempo tão dinâmica?
  Mais uma vez, ficam as questões.

O desafio da alfabetização

   Ao fazermos um resgate da história da educação no Brasil, percebemos que a preocupação com o analfabetismo esteve presente em quase todos os programas e projetos pensados e implementados na área de educação no Brasil, especialmente no período republicano.
   Várias concepções, teorias e métodos de aprendizagem da alfabetização balizaram esses programas, conforme a ideologia e visão de sociedade que os governantes de cada período tinham.
   No entanto, ainda hoje nos deparamos com um índice de mais de 8% de analfabetos com mais de 15 anos no país. Isso corresponde a mais 13 milhões de pessoas, que não conseguem ler ou escrever um bilhete.
Mesmo entre aqueles que frequentam a escola, o número de crianças que terminam o ensino fundamental sem conseguir encontrar uma informação simples num texto ou redigir um pequeno texto é preocupante.
   A mais recente tentativa de reverter esse quadro é a implementação do "Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa - PNAIC".
A ideia do pacto é agregar toda sociedade na soma de esforços para melhorar os índices de alfabetização no país.
   A teoria de aprendizagem que o pacto implementa é interacionista - reflexiva que propõe a construção da aprendizagem através das interações dos alunos com a escrita e leitura com a mediação do professor.
   É um programa ambicioso no seu objetivo e seu maior desafio é fazer a proposta chegar a todas as partes do pais, onde em muitos lugares a realidade da própria escola é caótica.

sábado, 28 de novembro de 2015

Meu ambiente alfabetizador

Trabalho em grupos.
Material concreto e jogos para alfabetização matemática.

Jogo: batalha silábica.

Alfabeto e palavras significativas com as famílias silábicas.

Partes do corpo e mapa de conceitos.
Mapa de conceitos construído a partir do tema: os animais.
Gêneros textuais: poesia.
Calendário.
Nome dos numerais.


Formação de duplas.
















terça-feira, 24 de novembro de 2015

Construção da Aprendizagem da Leitura

   Foram bastante significativas para minha prática as aprendizagens sobre como se constrói a habilidade de leitura.
   Para mim era passivo que depois que se apropriava do sistema de escrita alfabética, a criança consegue ler e entender o que lê. E me deixava muito conquistada ver que muitos de meus alunos de 4° ano "liam" um texto mas tenham dificuldade de encontrar uma informação explícita no texto.
   Ao observar com mais atenção a leitura deles, percebi que a maioria ainda se encontra na etapa da decodificação ou conflito entre decodificação e significado.
   Como fazê-los avançar?

domingo, 22 de novembro de 2015

A História da Educação no Brasil: Dominação, Elitismo e Autoritarismo

   Ao fazermos um estudo sobre a história da educação no Brasil, desde o período colonial fica evidente que a organização, os projetos pedagógicos, as bases curriculares (o modelo de educação) quase sempre foram impostos hierarquicamente por aqueles que detinham o poder político e econômico.
   Nas escolas e reduções, o projeto pedagógico era baseado no "ratio studorium" que tinha o objetivo de instruir os povos nativos à moda europeia, promovendo a sua civilização e a elite colonial era instruída nos valores morais e cristãos.
   Com a expulsão dos jesuítas na segunda metade do século XVIII "reformas pombalinas", deram início a "laicização" da educação. No entanto a estrutura hierarquizada, autoritária e compartimentada das escolas se manteve.
   No início da república buscou-se a universalização e gratuidade do acesso à escola, porém a própria metodologia pedagógica se encarregava de excluir as camadas mais pobres da população do avanço na escolarização.
   Com o início da Era Vargas, os pioneiros da educação organizaram reformas na educação que visavam "preparar" os cidadão para a vida em sociedade (cada vez mais urbana) e para o mercado de trabalho.
   Um modelo diferenciado de educação foi implementado na década de 1960, em algumas cidades brasileiras. Era o movimento de Educação Popular idealizado por Paulo Freire e outros educadores que adotam suas concepções de ensino aprendizagem. Essa proposta de diferenciava por seu caráter democrático, crítico e participativo.
   No entanto, a ditadura militar veio e o movimento foi abortado. Voltou a prevalecer o autoritarismo, o didatismo e o pragmatismo na educação.
Com a volta da democracia (1985) e a nova constituição criou-se o espaço para a construção de um modelo de escola mais democrático e participativo. Essa construção dos PCN, com a implementação do FUNDEB, dos programas como PNDE, PNAIC e outros.
   A mais nova etapa dessa construção é a criação da Base sendo chamados a participar da elaboração da parte diferenciada da Base que pretende levar em conta a cultura e a realidade de cada escola.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Criança, a Educação Infantil e o Ensino Fundamental

  Os pareceres que normalizam o ensino fundamental, a obrigatoriedade da educação infantil, bem como o ciclo de alfabetização são baseados nos princípios da continuidade e ampliação.
  Anteriormente a essas normatizações, a educação infantil era vista com objetivos assistencialistas e compensatórios que justificavam o fracasso escolar pela perspectiva da carência cultural e deficiências cognitivas e linguísticas.
  Esses paradigmas ainda norteiam as práticas de muitos educadores, tanto na educação infantil, como no ensino fundamental e o desafio de transformar requer muito estudo e um esforço de todos envolvidos nesse processo.
  No entanto, é preciso ter consciência de que o ingresso na escola, por si só, não assegura às crianças o acesso a um contexto de ensino que promova aprendizagens significativas, o que supõe uma escola preparada em termos físicos, materiais e com profissionais competentes.
  É preciso,não apenas ampliar o tempo de permanência das crianças, mas também garantir que elas tenham de fato, o direito de aprender em um ambiente no qual suas necessidade e interesses sejam respeitados.
  Esse direito pressupõe necessariamente o espaço para o lúdico em sala de aula. Não apenas o jogo e a brincadeira com objetivos didáticos, mas como expressão da espontaneidade e criatividade da infância. Essa necessidade nos remete à uma discussão bastante presente nos contextos educacionais: "É possível alfabetizar e letrar num ambiente lúdico que respeite a singularidade das crianças nessa etapa?"
  É possível, se fizermos em nossas práticas a articulação da aprendizagem da leitura e da escrita a momentos de brincadeiras e de exploração de outras linguagens.
  Essa articulação precisa ir se apresentando de maneira desde a Educação Infantil, pois "negar em qualquer etapa da educação institucionalizada, o contato com a linguagem escrita e sua notação é contrariar a própria realidade social em que a criança está inserida, visto que desde cedo, ela convive com vários materiais expressos de circulação e participa de distintas práticas e eventos de letramento.
  A transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental pode ser mais ou menos traumática, conforme essa articulação entre lúdico e aprendizagem estiverem presentes nessas etapas da escolarização.

Reflexões sobre os ataques a Paris


  

  Acompanhando os meios de comunicação, somos bombardeados por cenas e comentários sobre o que aconteceu em Paris na última sexta-feira. Foram cenas de violência que nos deixaram em estado de choque. Principalmente por que aconteceram no centro de uma das cidades mais famosas do mundo e um dos berços das ideias iluministas, que preconizam o domínio da razão sobre as emoções e a fé.
  É inaceitável que em pleno século XXI ainda tenhamos que nos deparar com cenas como essa, de atos terroristas movidos pela intolerância, pelo maniqueísmo religioso e pela necessidade de impor a visão de mundo de quem comete esses atos. Nesse momento, parece que todo o desenvolvimento científico e tecnológico que a humanidade alcançou, de nada serviram para nos tornar mais solidários e capazes de conviver com aqueles que pensam diferente de nós.
  Com toda certeza, essas cenas são inaceitáveis e incompreensíveis. Foi uma verdadeira noite de pavor. Mas o verdadeiramente lamentável é que outros fatos, outras cenas não causem em nós o mesmo choque e a mesma indignação.
  É também inaceitável que todos os dias ainda morram centenas de pessoas (militares e civis) nos ataques, guerras e guerrilhas promovidas pela ganância daqueles que as promovem com o objetivo de vender armas e controlar regiões estratégicas pela abundância de recursos naturais.
  Também é inaceitável que outros milhares definhem e morram pela completa inexistência dos mínimos recursos para sobrevivência (alimentos, água potável, medicamentos, saneamento).
  Igualmente não podemos mais aceitar que outros tantos habitantes do planeta vivam em situação degradante de mendicância, escravidão, prostituição, simplesmente porque outros acham que alguns atributos os tornam merecedores de todo conforto e qualidade de vida, além de bens materiais em quantidade muito maior do que aquelas que são capazes de usufruir.
  Nossa racionalidade também deveria ser incapaz de aceitar as infâncias perdidas pela violência do tráfico de drogas; outras, sufocadas pelo materialismo e egoismo do mercado, que cria pais consumidores de atributos dos seus filhos.
  São os atentados invisibilizados pela sociedade pós-moderna que provocam os ataques grandiosos como o que aconteceu em Paris.
  E não serão contra-ataques - também grandiosos - que mudarão a realidade. É preciso investir nossa fé, nosso conhecimento, nossa prática, para que cada ser humano que nos é confiado, na porta de nossas escolas, saia dali um pouco mais feliz, um pouco mais confiante e um pouco mais capaz de construir um mundo melhor.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Cultura Afro e Consciência Negra

  Haverá o dia em que trabalhar a cultura e a história afro-brasileiras será tão normal nas escolas, como é trabalhar a cultura européia ou americana.
  Enquanto esse tema precisa de lei federal e é tratado apenas às vésperas do 20 de Novembro, deixo aqui algumas sugestões de literatura infantil. Esses livros fazem parte do acervo enviado pelo MEC para o ciclo de alfabetização, mas podem ser usados também em outras turmas do Ensino Fundamental.

domingo, 8 de novembro de 2015

A ESCOLA E A INFÂNCIA


   Quanto mais pensamos sobre a escola, mais nos damos conta do quanto ela é um espaço artificial "criado" para preparar os sujeitos para a vida em sociedade.
   Na infância, período em que, para o desenvolvimento saudável, a criança precisa brincar, se movimentar, experimentar, cada vez mais cedo as colocamos pra dentro da escola.
   A justificativa é que, na escola ela terá atividades apropriadas para esse desenvolvimento. Isso está longe de ser real. Primeiramente porque as escolas não tem estrutura para esses seres tão pequenos e ao mesmo tempo tão carentes de espaços amplos e livres.
   Depois, as atividades desenvolvidas na escola, por mais "lúdicas" que possam parecer, são sempre pensadas, organizadas e mediadas por um adulto, que, mesmo inconscientemente, tem o objetivo de preparar para a aprendizagem. Aí já ficam fora a espontaneidade e a criatividade dos pequenos.
   É louvável a ideia de que a "educação infantil não deve imitar o ensino fundamental". É lógico então que o espaço e a organização da educação infantil também sejam diferentes, pensados para as particularidades das crianças menores de 6 anos.
   Também os profissionais que com elas interagem precisam ter uma visão diferente da organização desse precioso tempo que essas crianças estão nas escolas.
   Então, porque tirá-las das Emeis e colocá-las nas escolas dos grandes? Parece-me que há um grande contra-censo entre o que tem como objetivo da educação infantil e aquilo que se faz com as crianças e se cobra dos educadores.
   Mais uma uma vez as leis são feitas (como excelentes intenções) mas a estrutura fica por conta apenas da boa vontade e criatividade dos professores.
   Até quando?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Alfabetização

  A 2ª produção é de um menino de 4 anos, que vive num ambiente onde a leitura e o contato com materiais sempre foi uma constante. Ele encontra-se no nível pré-silábico, relacionando a escrita com a garatuja.

sábado, 24 de outubro de 2015

Novos olhares

  Compartilho a leitura "deleite", do encontro de formação do PNAIC, para refletirmos sobre a necessidade de constantemente revermos nossa prática, nossos (pré) conceitos, nossos olhares.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Alfabetização e letramento

  A alfabetização é um processo de construção do conhecimento onde o aluno precisa reconstruir o processo de leitura e escrita percorrido pela humanidade.
  Um sujeito é considerado alfabetizado quando se apropria do sistema de escrita alfabética e é capaz de traduzir em sons o que está representado por escrito.
  Alfabetizar também é um processo político que promove a cidadania e a autonomia. De acordo com Ferreiro, "aprender a ler e a escrever, em uma sociedade letrada, tem o significado de apropriação de poder, de um instrumento que permite participar na sociedade como um cidadão pleno e não como cidadão pela metade." (1990. p.69).
  Na sociedade letrada em que vivemos, ensinar apenas a ler mecanicamente e escrever apenas em contextos escolares, não responde à necessidade que o ser humano tem para atuar na sociedade de maneira crítica e autônoma.
  Uma alfabetização significativa deve preparar para leituras e escritas que atendam às funções sociais das mesmas.
  Na escola, precisamos oportunizar leituras e produções reais e significativas, assim como ouvimos para falar, devemos cumprir essa relação entre escrever para ser lido e ler para escrever melhor, utilizando a função prática da linguagem em nossa sociedade.
  A alfabetização e o letramento são processos complementares que se relacionam, e um facilita a aquisição do outro: quanto mais fluência se adquirir na leitura, mais nos apropriamos do sentidos do que está escrito; quanto mais compreendemos os sentidos, mais fluente se torna nossa leitura.
  Por isso, cabe à escol, nas suas mediações de aprendizagens, não perder o foco nessas perspectivas: alfabetizar para letrar e letrar para a alfabetização ter sentido.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A infância, o lúdico e a alfabetização

 

  Uma das principais características da infância o é seu envolvimento com o lúdico.
  Lúdica é a atividade que compreende os conceitos de brincadeira, jogo e brinquedo. De acordo com Friedmann (1992):
          "brincadeira refere-se basicamente à ação de brincar, ao comportamento espontâneo que resulta            de uma atividade não estruturada; jogo é compreendido como uma brincadeira que envolve                  regras; atividade lúdica abrange, de forma mais ampla os conceitos anteriores." (Friedmann,                1992, p.12).
  Dentro do processo de alfabetização, a ludicidade precisa ser reconhecida como ação necessária à expressão infantil e não somente como recurso didático para atividades pedagógicas.
  As atividades lúdicas permitem que a criança reconstrua criativamente sentimentos e conhecimentos e elaborem novas possibilidades de interpretação e representação do real. Ou seja, a criança se apropria do mundo pelos brinquedos e jogos, mediados pelas relações humanas que as cercam. 
  Embora os estudiosos da educação defendam as atividades lúdicas como recursos para o desenvolvimento de ações pedagógicas significativas, como aquisição da leitura e da escrita, conceito matemáticos, é preciso evitar a didatização da ludicidade. Compreende o brincar e jogar apenas como recurso didático empobrece o seu significado e tira a sua essência de atividade prazerosa. Além disso, a didatização descaracteriza a atividade lúdica, fazendo com que as crianças a evitem e desistam dela.
  É preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre o brincar e jogar para se expressar e as atividades propostas com o objetivo de estimular a aprendizagem.

domingo, 18 de outubro de 2015

PNAIC nos municípios: o que muda na gestão municipal e escolar

   Ao aderir ao Pacto, em 2013 a gestão da educação no município assumiu um compromisso com alfabetização nas escolas públicas.
   Além de oportunizar aos educadores a participação dos programas de formação continuada e assegurar as condições necessárias para os professores mais envolvidos realizarem seus encontros de formação, é compromisso da gestão atenderem as demandas provocadas pela chegada dos materiais e assegurarem sua disponibilização aos professores e estudantes viabilizarem a realização das avaliações nacionais, mobilização do controle social e da gestão, divulgação e articulação local. 
    Além desses compromissos iniciais, outros foram sendo agregados e precisam ser implementados tais como:
  • promover ações que implementem uma gestão democrática, entendida como " o principal instrumento para transformar o processo educativo em uma prática social voltada para a construção da cidadania, que se desenvolve numa escola cidadã" (BORDIGNON, 2001, p175);
  • promover a participação dos gestores e coordenadores no planejamento das ações;
  • oportunizar espaços de planejamento coletivo entre os professores alfabetizadores de uma mesma escola para desenvolverem atividades articuladas.
  • criar espaços para o desenvolvimento de atividades diferenciadas (brinquedoteca, sala de informática).
  • promover a mobilização da comunidade escolar especialmente das famílias dos alunos.
   Como podemos perceber ao aderir ao pacto os municípios se comprometem com uma mudanças em toda relação que se dá entre a gestão e as escolas, exigindo um envolvimento que vai muito além da formação dos professores.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Os desafios da alfabetização

  Pensar sobre a alfabetização é pensar no meu fazer profissional de todos os dias. Nenhuma turma, nenhum aluno, nenhum desafio é igual a outro. É um trabalho apaixonante, mas que exige que estejamos sempre nos avaliando, nos questionando, sempre nos reinventando.
  Sabemos que, a menos que haja alguma limitação funcional (síndromes, paralisia cerebral, etc.) todas as crianças são capazes de aprender a ler e a escrever. O desafio é descobrir a maneira de ajudar cada uma a fazê-lo, já que algumas parecem querer derrubar essa convicção.
  Em uma das escolas que trabalho, tenho uma turma de quarto ano. Avaliando a leitura deles, podemos observar que a maioria deles consegue apenas decodificar as palavras (alguns com bastante dificuldade); e apenas alguns conseguem encontrar informações diretas num texto.
  Tenho tentada inúmeras estratégias, tanto para melhorar a fluência da leitura, como a capacidade de interpretação (letramento), mas vejo poucos progressos. Parece que não consigo chegar até eles. Ficam apáticos e fazem tudo de qualquer jeito.
  Como chegar até eles? Como estimular essas crianças? Como dar a essas crianças, tão carentes de sonhos e ambição, as mesmas oportunidades daquelas que desde cedo tem o mundo da leitura e escrita como parte do seu mundo?

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Reflexões sobre "A máquina escolar"

  Mais uma vez uma leitura indicada pelo professor Dilmar conseguiu me deixar perplexa pela clareza com que expõe algumas noções que muitas vezes temos, mas que poucas vezes no damos conta com tanta propriedade.
  Muitas vezes me dei conta de que a escola, da forma como está organizada, apenas contribui para manter a configuração social e a ordem estabelecida.
  Em muito pouco ou quase nada uma cultura escolar marcada pela imposição de saberes considerados superiores pode contribuir para a transformação social.
  O texto fez uma retomada de como se deu, historicamente, a construção dessa instituição pensada e organizada desde o início para doutrinar as novas gerações e moldá-las de acordo com o que, cada sociedade em cada tempo, considerou adequado para manter a divisão de classes e o domínio de uma sobre a outra.
  Se a escola é uma construção humana, nada impede que repensemos seu papel e sua organização à fim de que, diferente do que foi até hoje, possa ser um espaço de transformação que contribua para a formação de pessoas capazes de questionar a organização política, econômica e social e (re) pensar sua atuação no lugar em que vive.
  É um grande desafio, cada vez mais urgente e necessário. E precisa começar, antes em cada um de nós.

Primeiras impressões do semestre

  Após a primeira aula com os professores das novas interdisciplinas, registro aqui minhas impressões.
  Primeiramente quero dizer que estou achando um encontro melhor que outro. Cada professor tem conseguido nos encantar e manter atentos e participativos durante toda a aula. Saímos do Pólo e continuamos as discussões no caminho de casa.
  O novo grupo também é muito bom e cheio de gás.
  A mim, particularmente, muito me motivam as áreas de alfabetização (onde atuo) e da escolarização na perspectiva histórica. Também a psicologia e a infância "de 0 a 10" vão ser bastante úteis no meu trabalho com séries iniciais e com meus filhos de quase 4 e seis anos.
  O Seminário Integrador tem conseguido fazer a rede entre as interdisciplinas e ajudado a nos organizar.
  Enfim, novos desafios, novas reflexões e muitas aprendizagens. Como nos fez perceber o professor Clésio: "enquanto aprendemos, estamos nos reconstruindo e consequentemente, nos renovando; não aprendemos porque estamos vivos, mas estamos vivos porque aprendemos. E aprendemos sempre nas interações com os outros."

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Leituras

   O MEC enviou para as escolas alguns livros para a formação dos professores. Quando possível, tenho lido alguns deles.
   Para quem trabalha nas séries iniciais, sugiro este:

   Ele apresenta sugestões bem interessantes de como trabalhar situações-problemas numa nova perspectiva do ensino da Matemática.
   Boa leitura!


Maioridade Penal e Educação

   Acredito que alguns temas que estão presentes no nosso cotidiano não podem ficar fora de nossas reflexões enquanto educandos e educadores.
   Fico perplexa com alguns posicionamentos à favor da aprovação da maioridade penal no Brasil, especialmente quando esses posicionamentos vem de pessoas ditas "esclarecidas". Pior ainda quando vem daqueles que por pouco ou muito tempo convivem com as "vítimas" dessa lei: os professores.
   É difícil acreditar que alguém com o mínimo de bom senso acredite que engaiolar os nossos adolescentes seja a solução para a violência e a criminalidade em que eles estão envolvidos. Os jovens que mataram meu ex-aluno com uma pedra há algumas semanas atrás são vítimas da nossa sociedade hipócrita, preconceituosa e individualista, quanto o menino que eles mataram. O pior é que eles não sabem disso.
   O adolescente que entra em nossas casas para roubar nossos bens e trocá-los por drogas, não quer nossos bens e nem as drogas. Ele só quer ser visto por nós.
   "Se não vejo numa criança, uma criança é porque alguém a violentou antes, e oque vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado." (Betinho)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Quem somos nós que ousamos querer ensinar aos outros

   Como qualquer se humano nos constituímos da carga genética, que além de nossas características físicas, também determinam alguns traços de nossa personalidade.
   Somos igualmente formados pela interação com o meio e com os grupos com quem interagimos basicamente através dos sentidos e da construção da linguagem.
   Também como toda espécies, somos influenciados pelo momento histórico em que vivemos, resultando de toda história da humanidade que nos antecedeu.
   Somos o resultado das reflexões e construções internas que fazemos à partir dessas vivências e interações.
   Também temos nossas necessidades, nossos sonhos, nossos desejos que buscamos satisfazer com o resultado de nosso trabalho.
   No entanto há algo a mais, que move um professor, além da trama interdisciplinar que nos constitui enquanto seres humanos, há esse desejo intenso de possibilitar ao outro o conhecimento, a experiência, a descoberta. É o prazer de dar o outro a chance de aprender aquilo que estamos sempre junto com eles reaprendendo: essa coisa mágica que é viver e reinventar a vida.
   Sem esse desejo de compartilhar, não é possível ser professor.

domingo, 28 de junho de 2015

Porque a educação não avança

   Fracasso nas reformas educacionais promovidas pelos governos de deve:
    Ø  Falta envolvimento no planejamento de quem realmente as põe na prática;
    Ø  Falta articulação entre as medidas;
    Ø  Falta um planejamento global que faça a ligação entre as ações;
    Ø  Falta continuidade nas ações.
   Exemplo:
   A formação do “pacto pela alfabetização” busca através da formação, instrumentalizar os professores para melhorar a qualidade e os índices de avaliação no processo inicial de escolarização. Traz novos referenciais para se trabalhar essa fase tão importante (a mais importante) da aprendizagem, no entanto, como a exigência da formação foi imposta aos professores alfabetizadores, sem saberem realmente do que se tratava, criou uma hostilidade inicial à proposta.

Além disso, os governos têm sido bastante ineficientes na sua contrapartida (bolsas dos professores, materiais pedagógicos, tempo para estudo). Isso aumenta ainda mais nossa resistência em cooperar e, quando parece que a “coisa está engrenando” param as formações, começa o diz que me diz que e vem à incerteza sobre a continuidade da proposta. Mais uma vez a educação refém da economia e da política.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Mais reflexões sobre as avaliações externas

   No último dia 16, estive participando de uma formação promovida pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Nova Prata, sobre "Qualidade no Ensino e na aprendizagem", com as professoras Jane Dal Pae Giugno e Maristela Farenzena, do Curso de Pedagogia da Universidade de Caxias do Sul.
   As falas e reflexões do encontro abordaram especialmente as questões das Competências e Habilidades avaliadas nas avaliações do MEC (Prova Brasil e ANA), no ensino fundamental.
   Analisar as habilidades e os saberes (conteúdos) necessários para se resolver algumas questões me ajudou a entender como essas questões são construídas e as estratégias que o aluno pode estar fazendo para assinalar determinada resposta.
   Mas ainda acho que esta forma de avaliação deixa de levar em conta  boa parte do processo que leva à aquisição de determinada habilidade. Os números mostram apenas o produto do processo e não a caminhada feita para chegar a esse resultado.
   Me parece que vamos acabar "treinando" os alunos a darem respostas iguais para as mesmas perguntas. Afinal, o que valem são os números...

Cultura Popular: Festas Juninas

   Estou trabalhando com o teme "Festas Juninas", e ao fazer a socialização de uma entrevista que as crianças fizeram com suas famílias - sobre como eram essas festas na sua infância - me dei conta de quantas coisas da nossa cultura vão se perdendo nesse turbilhão de "sociedade líquida", consumista, imediatista e descartável.
   Aproveitei e trouxe para a sala álbuns de fotos, que eram feitos na escola na segunda metade da década de 1990 e início da década de 2000. Foi fascinante ver os alunos encontrarem seus pais participando destes eventos, nas encenações da quadrilha. A maioria deles nunca viu uma fogueira junina ao vivo, e nem sabiam o que era "pau-de-sebo".
   Não acho que isso vá fazer grande diferença em suas vidas, mas como seria bom vê-los encantarem-se com coisas simples, como ensaiar uma apresentação junto com os pais e profes, passar a manhã de sábado pendurando bandeirinhas, fazendo molho para cachorro-quente ou carregando lenha para a fogueira.
   Os tempos são outros, as festas são outras, mas eu queria que eles tivessem essas experiências. Elas nos fazem dar mais valor às coisas.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Cultura e Mercado

   Pensar cultura como produto tira, esconde, nos alienia de todo processo que constitui a manifestação cultural.
   Analisar a forma como um grupo vive, convive, produz e se expressa apenas pelo momento presente, sem conhecer a construção histórica desse grupo dá uma visão bastante limitada de sua produção.
   Se entendermos a cultura como processo de produção da existência humana parece-me bastante difícil estabelecer um valor. É o mesmo que quantificar o valor de uma vida. No entanto, é o que a sociedade neoliberal faz: vincula vincula a cada grupo um valor de mercado. Os grupos e manifestações não "vendáveis" são excluídos tornados invisíveis e marginalizados.
   Cabe à escola oportunizar aos alunos o reconhecimento dos processos de construção de uma cultura e o contexto histórico em que essa construção se deu.
   Para exemplificar essa alienação da sociedade, lembrei-me do que aconteceu no último Festival Internacional de Folclore, em Nova Prata. Entre os grupos que aqui estiveram, havia um da África do Sul, constituído por um chefe tribal, com suas esposas e filhos. A apresentação era baseada em sons e gritos na língua dessa tribo e gestos repetitivos, imitando movimentos de animais.
   A maior parte dos espectadores achou a apresentação chata e até ridícula. No entanto, foi o único grupo que trouxe a expressão genuína de seu modo de vida. Os outros grupos fizeram apresentações maravilhosas e inesquecíveis, mas eram representações de algumas manifestações culturais. Sem conhecer o processo, não há como entender isso e, portanto, geralmente damos mais valor ao visual, ao espetáculo do que àquilo que eles expressam.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Novos Desafios

   O desafio apresentado no início do curso de Pedagogia de se distanciar e lançar um novo olhar sobre a escola em que trabalhamos tem me levado, mais que tudo, a refletir sobre minhas práticas na escola.
   Sempre pautei meu trabalho pedagógico em ajudar meus alunos a construírem suas aprendizagens e criarem estratégias para resolverem os desafios que surgirem em suas caminhadas... Busquei sempre tornar suas aprendizagens significativas, partindo da realidade em que vivem e de suas experiências para aprofundar seus conhecimentos. Procurei manter a ética profissional, ajudar e aprender com meus colegas, interagir com a comunidade e buscar novos conhecimentos para aprimorar meu trabalho.
   No entanto, após as leituras iniciais do curso e desse olhar diferente que estou aprendendo a lançar sobre a escola, descubro que essa maneira de trabalhar, embora considere qualificada e comprometida com a individualidade de meus alunos, pouco tem contribuído para que esses indivíduos se reconheçam como coletivo, se tornem sujeitos da cultura que eles vivenciam e contribuam para construir uma sociedade que experiencie a diversidade e acabe com as desigualdades.

   Rever minha postura a essa altura da minha carreira parece um contrasenso; deveria estar me acomodando e me preparando para a aposentadoria. Mas os novos desafios estão conseguindo me mobilizar e fazer novos projetos, me reciclar e tentar contribuir, nessa comunidade, para fazer uma escola melhor.

domingo, 7 de junho de 2015

Um a menos? Um a mais?

   Na última madrugada, um jovem do bairro foi assassinado...
   Certamente, amanhã, ouvirei dos colegas o que já ouvi de muitas pessoas, o que sempre se diz em situações como essa: “Um a menos pra incomodar”; “Não podia terminar de outro jeito”.
   O menino foi meu aluno na 1ª série, quando teve o pai (ex-presidiário) assassinado na porta de casa. Na adolescência se envolveu com drogas e desde então seu histórico (como de muitos outros), foi de infrequência escolar, reprovações, evasões, roubos, internações, agressões (esteve envolvido em um assassinato)... Nada que o fizesse parar! Na última semana ele completou 18 anos.
   Não consigo deixar de pensar naquele menino, sentado na minha frente, descobrindo os caminhos da alfabetização. Como esse e outros tantos meninos passam a ser considerados “feridas” da sociedade que precisam ser extirpadas para que possamos levar nossas vidas tranquilamente? Não foi essa sociedade que os fez assim?
   Não será um a mais na lista de nossos meninos que fizeram parte da nossa história e que acabam na criminalidade? Por que a sociedade moderna, com todas as conquistas, descobertas e tecnologias, ainda deixa nossos meninos se perderem e perderem a vida de forma tão trágica e primitiva?
   São tantos fatos parecidos todos os dias que já não damos importância. Ficamos anestesiados e consideramos um mal necessário. Até vermos um dos nossos, estendido, ensangüentado, deformado. Ai volta a definitiva: “O que podíamos ter feito por ele? O que podemos fazer para que a história não se repita?”


Para: Marcos, Marcelito, Vanderlei, Everton, João Henrique, Roger, Vinícius, Maico,Vanderbiu e tantos outros.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Que aluno queremos construir

   Nesta semana, com minha turma de 4º ano, comecei a trabalhar com o tema “Minha escola, outras escolas”. Aproveitando as reflexões do curso de pedagogia sobre o papel da escola na formação do indivíduo, questionei os meus pequenos sobre a importância da escola em suas vidas. Ouvi, invariavelmente, a mesma resposta da menina das margens do Amazonas. “A escola é importante pra mim estudar e ser alguém na vida”. Continuei perguntando: “Mas o que é ‘ser alguém na vida’?”Eles não souberam responder.
   Tenho a clareza que esses questionamentos são bastante profundos para crianças de dez anos. O que me chama atenção, mais uma vez, é o poder que a família e a sociedade dão à escola: podemos fazer alguém ser alguém na vida.
   Então passei a refletir sobre que “alguém” eu gostaria de ajudar a construir.
   Gostaria e trabalho para que meus alunos sejam, antes de tudo, capazes de respeitar e serem respeitados em suas individualidades. Que valorizem os outros e sejam valorizados. Que reconheçam o trabalho e as aprendizagens dos outros e sejam reconhecidos pelos seus. Que tenham autonomia e bom senso para não serem engolidos pela “modernidade líquida”, que torna valores e sentimentos, fluídos e descartáveis. Que saibam trabalhar e conviver em cooperação. Que sejam solidários e consigam se colocar no lugar do outro. Que saibam resolver seus conflitos pelo diálogo, sem fazer uso da violência, mas sem perder a dignidade.
   Parece utopia? Mas qual o sentido de nossas ações sem utopias?

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Os desafios da diversidade na escola - II

Dia desses, assistindo uma reportagem no Jornal Nacional sobre as cheias do Rio Amazonas e seus afluentes, e as dificuldades das crianças das populações ribeirinhas em freqüentar a escola, me chamou a atenção a fala de uma menina, cuja mãe faz o percurso de casa até a escola, oito vezes por dia, de canoa pelo rio, para não deixar os filhos faltarem aula. A menina afirmou que valia à pena o risco e o sacrifício para estudar e “um dia ser alguém na vida”.
Fiquei pensando:
- Se não estudar, ela não é ninguém?
- O que é para ela, “ser alguém na vida”?
- O que é para nós, professores, ser alguém na vida?
- Onde está o poder da escola em fazer essa menina que vive no “fim do mundo” (na visão cosmopolita que temos do mundo) em ser alguém?
- Na “era do conhecimento”, em que vivemos, qual o espaço que essas populações tem para “ser alguém”; passar a existir; ter espaço, sem deixar de ser quem são?

São questões para as quais estamos sempre refletindo, e não sabemos o que e como responder. Qualquer que seja a resposta, será sempre o início de novas reflexões, a busca de novos caminhos, a construção de novos saberes. Não os saberes técnico-científicos da sociedade moderna, mas os saberes da vida, que sempre se renovam.

terça-feira, 12 de maio de 2015

O desafio da diversidade na escola – I

  A constituição de 1988 trouxe várias conquistas e avanços em termos de direitos sociais e de organização e participação política.
   Um dos avanços mais significativos foi a universalização do acesso à educação escolar.
   Com essa universalização, a escola passou a receber alunos que apresentam uma enorme diversidade de experiências culturais, de formas de percepção do mundo. Há também as diversidades biológicas (étnico-raciais) e os chamados “portadores de necessidades especiais”. Essa diversidade de público demanda da escola um currículo que atenda essa universalidade, sem privilegiar ou excluir ninguém.
   A forma mais nociva de se excluir um grupo ou um indivíduo é não reconhecer a diversidade que os constituem.
   Negar o racismo, a homofobia, o preconceitos com as classes mais populares e seus saberes, é negar a esses grupos ou indivíduos o seu direito a reivindicar respeito e aceitação. Afinal, se “não existe racismo no Brasil”, por que criar leis que garantam acesso a negros e pardos às universidades, por exemplo?
   Garantir direitos a grupos historicamente excluídos é um dos papéis da escola, enquanto espaço, não só de aprendizagem, mas também de formação para a cidadania.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Aprendendo a Ver

   Hoje, enquanto relia o livro "O menino que aprendeu a ver", da Ruth Rocha, comecei a refletir sobre a minha trajetória inicial no PEAD. Em muitas situações me sinto como aquele menino que olha e não vê. E, aos poucos vai descobrindo caminhos e sentidos.
   Ainda tenho uma longa caminhada, mas sinto que também já tenho algumas conquistas. Para quem se sentia analfabeta nos ambientes virtuais, ter criado um blog, enviar trabalhos no moodle e participar de fóruns virtuais, é como ler as primeiras páginas de um livro.
   A leitura do livro também me fez refletir sobre o desafio do professor alfabetizador na sociedade letrada em que vivemos. Temos a tarefa de iniciar as crianças no fantástico, desafiador e desacomodador mundo do conhecimento acumulado pela humanidade...
   A construção da escrita foi um processo que levou milhares de anos, desde os primeiros riscos nas paredes das cavernas, até a simbologia fonética dos alfabetos. E saber que uma criança é capaz de reconstruir essa trajetória em sete ou oito anos é deparar-se com a incrível capacidade que nós, seres humanos, temos de aprender, e de aprender a aprender.
   E nosso desafio é ainda maior porque, além de decodificar os símbolos do alfabeto, juntá-los para dar-lhes sentidos, precisamos ajudá-los a descobrir as funções sociais da escrita na nossa sociedade; o poder que a capacidade de se apropriar do conhecimento tem para transformar suas vidas.
   O poder, pro exemplo, que a Ruth Rocha teve, em uma história para crianças, de me fazer pensar e me questionar sobre o meu papel como professora que tem paixão por ver as crianças descobrirem a leitura e o compromisso de fazer isso de maneira cada vez melhor.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Cidadania na Escola

   A cidadania se aprende principalmente pela vivência e pela convivência. Ser cidadão é, antes de tudo, sentir-se como parte de uma sociedade. Não apenas usufruir dos direitos, mas também atuar como responsável pelo coletivo social e pelo ambiente.
   Se a pessoa se sente parte de um grupo, ela age para preservar e melhor o espaço desse grupo.
   A escola é o primeiro espaço, depois da família, onde o ser humano tem a possibilidade de conviver. Se, nesse espaço ele se sentir acolhido e ali for levado a refletir sobre o que faz, sobre o por quê e o como fazer, já será um grande aprendizado para a cidadania.
   Experiências de cooperação, de solidariedade e de autonomia na aprendizagem são, ao meu ver, imprescindíveis para se formar pessoas mais conscientes, mais críticas e também mais capazes de refletir sobre seus atos, de se colocar no lugar do outro e de ajudar na busca do bem comum.

   O que precisamos aprender, como educadores, é refletir como cada uma de nossas práticas pode ajudar nesse aprendizado.




"A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram.  Homens que sejam criadores, inventores, descobridores.  A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe."
Jean Piaget

terça-feira, 14 de abril de 2015

Semana do livro infantil

   Enquanto preparava minhas aulas e refletia como fazer para ainda atrair as crianças para a leitura, e por alguns momentos, levá-las ao mundo do encantamento e da magia, fiz essa poesia e gostaria de compartilhá-la com vocês.

Leitura

Quando não quero crescer, sou Peter Pan
Mas vem a consciência do Grilo Falante e vou-me trabalhar
Às vezes queria morder a maçã, adormecer e esperar o beijo do Príncipe
Acordo e, como a Raposa, concluo que as uvas estão muito verdes
Meu nariz já não cresce como o do Pinóquio,
Então engulo a pílula falante e desato a tagarelar como a Emília
Sou um Menino Maluquinho, com "asas nos pés", 
Mas às vezes encaro a Medusa e fico paralisado.
Busco a varinha da Fada Madrinha,
E viro cigarra cantando toda a primavera.
Como a Bela Borboleta, de lagarta, viro princesa,
Mas a poção não funciona e me torno um Príncipe Sapo.
Busco o Sol para soltar minha patinha e saio andando como o Saci-Pererê.
Quem sabe com a Bota de Sete Léguas chegue no Reino do Norte
E encontre o pote de ouro na ponta do arco-íris.
Para costurar o Vestido da Centopéia, dou Bom dia a todas as cores.
Então sou o solitário Felpo Filva, 
Até que o famigerado lobo mau bata à minha porta.
Visto meu Chapeuzinho Vermelho, com sapatinhos de Cristal
E as rendas da Aranha Arabela.
Não estou nas histórias da Carochinha, nem faço os doces da tia Nastácia.
Só queria encantar tua infância,
Como me encantam as páginas de um livro!

Rosângela F. Conti

E as avaliações externas?

   Enquanto construía o retrato da escola, teve o início o ano letivo e, com ele, as reuniões de planejamento. E nelas ficou evidente o maior desafio da escola: MELHORAR OS ÍNDICES DO IDEB (que melhoraram em relação à avaliação anterior, mas ainda são os mais baixos do município).
   Também ouvi, no sábado, uma pesquisa em que entre as escolas com melhores no ENEM, não havia escolas públicas, estaduais ou municipais. E também não consta nenhuma escola gaúcha.
   Só esses dados já são suficientes para tirar o sono de quem trabalha na educação.
   E a primeira questão é: dentro de contextos tão diferentes, de tamanha diversidade cultural e social, de construções históricas tão distintas, a mesma avaliação servir de parâmetro para um país tão imenso e tão diverso?
   Se os estudiosos da avaliação escolar preconizam que é preciso se levar em conta a realidade de cada um, que é preciso respeitar e valorizar os saberes de cada comunidade, como é que espera-se que todos os alunos de 6 a 7 anos do país deem as mesmas respostas para as 20 questões da "Provinha Brasil", por exemplo?
   Nas questões de múltipla escolha dessas avaliações, onde se evidenciam as construções e reflexões feitas pelos alunos?
   Mais questões! Mais reflexões! Tenho muito há estudar.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Sociedade e Escola

   Enquanto construía meu "Retrato de Escola", foram surgindo algumas reflexões sobre a influência da sociedade na realidade escolar e de toda a comunidade onde ela está.
   É visível que a sociedade em que vivemos se caracteriza pela desigualdade entre os grupos, pela competitividade, pela valorização do ter e pelo intenso consumismo.
   Essa organização econômica, política e social, denominada neoliberalismo, se caracteriza pela excessiva dominação do mercado na vida das pessoas. O mercado é senhor da economia, que dita a política, que governa as instituições que "controlam" a vida do ser humano. Consequência disso: somos "criados" para consumir. E pela nossa capacidade de consumo, somos avaliados e incluídos, ou não.
   A descartabilidade dos produtos, das instituições, dos valores e do próprio ser humano, além da influência dos MCS é que mantém essa ordem, onde evidentemente os interesses de quem controla o mercado são preservados.
   O Estado, enquanto instituição que "governa" vem perdendo cada vez mais o poder de intervir nessa ordem. As privatizações, a corrupção dentro do governo, a falta de organização de projetos contínuos contribuem para essa perda de poder.
   Dizemos também que vivemos numa democracia. Indubitavelmente temos a liberdade de expressão, de manifestação, de associação, de eleição. Mas em isso influencia à ordem estabelecida? E estamos preparados para exercer esses direitos de maneira autônoma, crítica e coerente?
   As próprias manifestações que se multiplicaram e se multiplicam pelo país, o que tinham realmente de vontade de transformar? Ou será que contribuíam apenas para desestabilizar o Estado e o governo e ampliar o poder daqueles que realmente controlam a economia e a sociedade? Os manifestantes são realmente sujeitos desses fatos históricos? Ou mais uma vez estamos servindo aos interesses de "alguém"?
   Diante dessas constatações e questionamentos, me vem a maior de todas as questões: E A ESCOLA?
   E sobre a escola enquanto instituição forma de educação e de formação de cidadãos, inúmeras outras questões me vem em mente:
   > Diante dessa realidade, a quem está servindo a escola? É ela um espaço de transformação, de inclusão e de formação crítica e autônoma para a verdadeira cidadania? Ou é apenas mais um espaço de reprodução dessa ordem egoísta, consumista e competitiva?
   Temos nós, professores, consciência da necessidade de formar novos homens, que contribuam para a formação de uma nova sociedade ou "damos" nossas aulas, com o máximo de dedicação e competência, mas sem refletir e questionar em que essa aula contribui para essa formação?
   Formamos alunos capazes de competir no mercado de trabalho, de disputar de igual para igual pelos espaços na sociedade? Ou queremos formar pessoas capazes de colaborar, de reconstruir, de criar formas de produção sustentáveis, solidárias e que respeitem a pessoa enquanto indivíduo único, mas que só se constrói na convivência, na atuação e na dinâmica das relações com outro indivíduos?
   Ficam as perguntas! Não haverão respostas prontas. Mas sempre haverá o desafio de refletir, de buscar, de reconstruir os saberes. Isso é ser educador.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Primeiras reflexões

   Sou a professora municipal Rosangela F Conti. Atuo em duas escolas no município de Nova Prata com séries iniciais e, neste ano iniciei o curso de pedagogia à distãncia pela UFRGS no pólo universitário de Vila Flores.
    Meu primeiro desafio foi construir o retrato de uma das escolas onde trabalho. Escolhi e EMEFPe Josué Bardin e durante o processo, que está longe de ser concluido, me dei conta de algumas coisa que gostaria de compartilhar com meus colegas.
   Primeiro: Só depois de iniciar o trabalho é que me questionei do porque escolhi esta escola. A outa escola onde trabalho tem uma situação mais, digamos assim," tranquila", com uma situação social e, até econômica mais estável. Não que seja um mar de rosas, mas comparativamente  os desafios são mais alcançaveis.
    Conclui que minha missão maior é onde os desafios são maiores. Ali posso fazer a diferença. Como na hist´ria do catador de conchas que andava na praia devolvendo ao mar as conchas que encontrava na areia. Ele não iria salvar a todas, mas para aquelas que ele devolvesse ao mar ele teria dado a chance de uma vida nova.
   E também por isso que resolvi voltar a estudar. para me capacitar e melhorar meu trabalho.