segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Interação com a deficiência

     Antes de ter contato com a realidade da inclusão, acreditava que existiria uma classificação diagnóstica que nos daria todas as características para encaixar cada criança deficiente numa "caixinha" e assim trabalhar para (con) formá-la de acordo com um padrão.
     Hoje, depois de conviver e trabalhar com algumas dessas crianças e fazer as leituras e reflexões sugeridas na interdisciplina "Educação de pessoas com necessidades educacionais especiais", vejo o quanto esse pensamento era ingênuo e até mesmo pernicioso para orientar a prática ao lidar com inclusão.
     Apesar dos laudos e diagnósticos, cada criança (deficiente ou não) é única no seu desenvolvimento, mas suas vivências nas suas experiências e nas suas relações.
     Os especialistas, por sua formação, geralmente vêem a deficiência antes de ver o ser humano.
     Cabe a nós, na escola, enxergar um ser humano com emoções, capacidades, expectativas que tem o direito de aprender para se tornar um cidadão autônomo, produtivo e feliz.
     Como fazê-lo? Eis o desafio.

domingo, 22 de outubro de 2017

A teoria de Piaget e Alfabetização

   As pesquisas de Piaget sobre o desenvolvimento da aprendizagem no ser humano contrapôs-se às teorias que embasavam o conhecimento baseado na herança genética (apriorismo) ou influência apenas do meio-físico e cultural (empirismo). Através de suas observações, Jean Piaget, percebeu que o conhecimento se constrói na interação do sujeito com o meio onde vive e com o objeto de aprendizagem.
   Para ele, o conhecimento:
   "não pode ser concebido como algo pré-determinado nem nas estruturas internas do sujeito, porquanto estas resultam de uma construção efetiva e continua, nem nas características pré-existentes do objeto, uma vez que elas só são conhecidas graças à mediação necessária dessas estruturas, e que essas ao enquadrá-las, enriquecem-nas. (PIAGET, 2007. p1)
   Esses estudos de Piaget transformaram a maneira de conceber o desenvolvimento humano e deu origem às teorias construtivistas de aprendizagem.
   Os estudos de Piaget, estavam mais relacionados às aprendizagens matemáticas. Mas a sua teoria serviu de aporte para a psicolinguista argentina Emilia Ferreiro pesquisar o processo de aquisição da leitura e escrita na criança.
   Assim sendo, se a criança aprende na ação com objeto, o objeto da alfabetização é a lingua escrita. A criança precisa agir e interagir com ela (a escrita) para se apropriar de sua aprendizagem.
   Na observação dessa ação da criança com a escrita. Emilia Ferreiro observou que a criança também passa por fases em que ela elabora hipóteses sobre essa aprendizagem.
   E é na constante ação-reflexão que a criança evolui de uma fase para outra.

Referências:
FERREIRO, Emili9a; TEBEROSKY, Ana, Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
PIAGET, Jean; Epistemologia genética, Trad. Alvaro Cabral. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

domingo, 15 de outubro de 2017

E por falar em diversidade

Nunca os temas relacionados à diversidade estiveram tão presentes na sociedade, nos meios de comunicação e também nas escolas.
   Reconhecer, aceitar e principalmente respeitar quem é diferente, pensa, vive, se expressa e convive de maneira diferente daquela que por muito tempo foi socialmente aceita por dita "normal" exige de cada indivíduo uma nova e desafiadora aprendizagem.
   Mais desafiadora para nós educadores que precisamos conduzi-la, mas antes precisamos construir essa aprendizagem em nós.
   Quando se fala em educação um objetivo que está presente é a formação para a cidadania. Para uma educação cidadã é preciso oportunizar "[...] todas as possibilidades de realização humana, abertas pela vida social em cada contexto historicamente determinado". Coutinho, 1994, p.2. Em outras palavras: todas possibilidades para todos.
   Isso exige uma postura radical de fé no educando, de amor à vida e de respeito à cada um.

Referências:

COUTINHO, Carlos Nelson. Cidadania e modernidade. Palestra proferida na Embratel, Rio de Janeiro; 20 de maio de 1994, Mimeo.

Refletindo sobre questões étnico raciais




   A lei 10.639/03 de 10/03/08 estabelece a obrigatoriedade do Ensino de História da África e das culturas afro-brasileiras nos currículos das escolas públicas e particulares do ensino fundamental e médio da Ed. Básica.
   A primeira impressão em geral ao nos depararmos com essa necessidade de trabalhar com histórias e culturas da África e afro-descendentes e que estamos, finalmente, preenchendo uma lacuna em nossos currículos e valorizando um dos grupos que também construiu e constrói a cultura e história do nosso país.
   No entanto, ao nos aprofundarmos na discussão e implementação da lei, percebemos que ela traz, não a necessidade de se acrescentar algo, mas de reconstruir o currículo e as práticas pedagógicas. O que se propõe é uma mudança estrutural, conceitual, epistemológica e política, onde se privilegie a diversidade nos discursos e práticas e se rompa com as relações de poder entre uma cultura sobre outras.
   "Falar sobre a África (e sobre Ameríndia) significa pois questionar e desabafar crenças queridas, pressupostos afirmados e múltiplas sensibilidades" Menezes, 2007. p.56. É por isso que essas demandas encontram ainda muitas resistências nas redes de ensino, entre os professores e mesmo individuais, em cada um dos envolvidos no processo.
   Um exemplo dessa resistência ocorreu a alguns dias numa das escolas em que trabalho: Cheguei na sala dos professores e a coordenadora da escola questionava sobre "o porquê de se dar tanta importância ao trabalho com a cultura afro. Se não é mais importante na nossa escola se trabalhar a cultura italiana, polonesa..." Não me contive e perguntei: "Não será por que, por mais de 400 anos, trabalhamos como se os negros não tivessem história, cultura e por aqui nem tivessem existido?" Aguardei a réplica, mas não houve.
   É claro que nem sempre pensei assim. Também estou aprendendo a ver e sentir a necessidade de se mudar ou "descolonizar" os currículos e a escola no Brasil. Ou seja; romper com as relações de poder da cultura branca, europeia, "acadêmica" sobre as demais. E dar voz e vez àqueles que por um longo período não as tiveram, a fim de se construir uma democracia de fato com igualdade de oportunidades a todos.

Referências:
BRASIL, Diretrizes curriculares nacionais para educação das relações étnico-raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, Brasília: junho, 2005
MENEZES, Maria Paula. G - Os espaços criados pelas palavras - Racismos, etnicidades e o encontro colonial, In Gomes, Nilma Lino (Org.) Um olhar além das fronteiras:educação e relações raciais. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p.55-76

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Ética na educação: um tema que não se esgota

   Na sociedade pós-moderna em que vivemos as transformações científico-tecnológicas provocam transformações nas relações sociais e interpessoais cada vez mais aceleradas e profundas. Falar-se ou questionar-se a ética nessas relações exige, de quem se propõe a fazê-lo, um exercício de reflexão e estudo cada vez mais constante.
   Especialmente nas escolas é muito comum a expressão "resgatar valores" como um objetivo do processo educacional. Mas que valores se quer resgatar? Os valores que produziram uma sociedade estratificada onde as relações de poder se dão no sentido vertical daqueles que "possuem" o conhecimento e o poder econômico sobre os demais? Valores que, ao longo do tempo, excluíram boa parte da sociedade que não teve acesso à cidadania, a serviços públicos de qualidade e à vida digna.
   A expressão resgatar nos passa a ideia de que já vivemos numa sociedade onde as relações eram mais equitativas, onde não havia conflitos geracionais, sociais ou pessoais, onde a distribuição de renda era mais justa e a própria "justiça", enquanto instituição, era mais imparcial.
   Todos sabemos que não foi assim. E talvez esses valores que se queira "resgatar" sejam justamente aquele que alicerçavam e alicerçam essas relações que, apesar de todas as transformações e lutas do mundo contemporâneo, teimam em se manter. Mesmo na escola.
   Embora o desvio do tema da publicação que seria a ética na educação, considerei importante a inserção da temática "valores" pois são eles que servem de parâmetro para aquilo que, individualmente, consideramos ético. Não apenas nos nossos julgamentos, mas, especialmente, em nossas posturas e atitudes.