quinta-feira, 28 de maio de 2015

Que aluno queremos construir

   Nesta semana, com minha turma de 4º ano, comecei a trabalhar com o tema “Minha escola, outras escolas”. Aproveitando as reflexões do curso de pedagogia sobre o papel da escola na formação do indivíduo, questionei os meus pequenos sobre a importância da escola em suas vidas. Ouvi, invariavelmente, a mesma resposta da menina das margens do Amazonas. “A escola é importante pra mim estudar e ser alguém na vida”. Continuei perguntando: “Mas o que é ‘ser alguém na vida’?”Eles não souberam responder.
   Tenho a clareza que esses questionamentos são bastante profundos para crianças de dez anos. O que me chama atenção, mais uma vez, é o poder que a família e a sociedade dão à escola: podemos fazer alguém ser alguém na vida.
   Então passei a refletir sobre que “alguém” eu gostaria de ajudar a construir.
   Gostaria e trabalho para que meus alunos sejam, antes de tudo, capazes de respeitar e serem respeitados em suas individualidades. Que valorizem os outros e sejam valorizados. Que reconheçam o trabalho e as aprendizagens dos outros e sejam reconhecidos pelos seus. Que tenham autonomia e bom senso para não serem engolidos pela “modernidade líquida”, que torna valores e sentimentos, fluídos e descartáveis. Que saibam trabalhar e conviver em cooperação. Que sejam solidários e consigam se colocar no lugar do outro. Que saibam resolver seus conflitos pelo diálogo, sem fazer uso da violência, mas sem perder a dignidade.
   Parece utopia? Mas qual o sentido de nossas ações sem utopias?

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Os desafios da diversidade na escola - II

Dia desses, assistindo uma reportagem no Jornal Nacional sobre as cheias do Rio Amazonas e seus afluentes, e as dificuldades das crianças das populações ribeirinhas em freqüentar a escola, me chamou a atenção a fala de uma menina, cuja mãe faz o percurso de casa até a escola, oito vezes por dia, de canoa pelo rio, para não deixar os filhos faltarem aula. A menina afirmou que valia à pena o risco e o sacrifício para estudar e “um dia ser alguém na vida”.
Fiquei pensando:
- Se não estudar, ela não é ninguém?
- O que é para ela, “ser alguém na vida”?
- O que é para nós, professores, ser alguém na vida?
- Onde está o poder da escola em fazer essa menina que vive no “fim do mundo” (na visão cosmopolita que temos do mundo) em ser alguém?
- Na “era do conhecimento”, em que vivemos, qual o espaço que essas populações tem para “ser alguém”; passar a existir; ter espaço, sem deixar de ser quem são?

São questões para as quais estamos sempre refletindo, e não sabemos o que e como responder. Qualquer que seja a resposta, será sempre o início de novas reflexões, a busca de novos caminhos, a construção de novos saberes. Não os saberes técnico-científicos da sociedade moderna, mas os saberes da vida, que sempre se renovam.

terça-feira, 12 de maio de 2015

O desafio da diversidade na escola – I

  A constituição de 1988 trouxe várias conquistas e avanços em termos de direitos sociais e de organização e participação política.
   Um dos avanços mais significativos foi a universalização do acesso à educação escolar.
   Com essa universalização, a escola passou a receber alunos que apresentam uma enorme diversidade de experiências culturais, de formas de percepção do mundo. Há também as diversidades biológicas (étnico-raciais) e os chamados “portadores de necessidades especiais”. Essa diversidade de público demanda da escola um currículo que atenda essa universalidade, sem privilegiar ou excluir ninguém.
   A forma mais nociva de se excluir um grupo ou um indivíduo é não reconhecer a diversidade que os constituem.
   Negar o racismo, a homofobia, o preconceitos com as classes mais populares e seus saberes, é negar a esses grupos ou indivíduos o seu direito a reivindicar respeito e aceitação. Afinal, se “não existe racismo no Brasil”, por que criar leis que garantam acesso a negros e pardos às universidades, por exemplo?
   Garantir direitos a grupos historicamente excluídos é um dos papéis da escola, enquanto espaço, não só de aprendizagem, mas também de formação para a cidadania.