domingo, 15 de outubro de 2017

Refletindo sobre questões étnico raciais




   A lei 10.639/03 de 10/03/08 estabelece a obrigatoriedade do Ensino de História da África e das culturas afro-brasileiras nos currículos das escolas públicas e particulares do ensino fundamental e médio da Ed. Básica.
   A primeira impressão em geral ao nos depararmos com essa necessidade de trabalhar com histórias e culturas da África e afro-descendentes e que estamos, finalmente, preenchendo uma lacuna em nossos currículos e valorizando um dos grupos que também construiu e constrói a cultura e história do nosso país.
   No entanto, ao nos aprofundarmos na discussão e implementação da lei, percebemos que ela traz, não a necessidade de se acrescentar algo, mas de reconstruir o currículo e as práticas pedagógicas. O que se propõe é uma mudança estrutural, conceitual, epistemológica e política, onde se privilegie a diversidade nos discursos e práticas e se rompa com as relações de poder entre uma cultura sobre outras.
   "Falar sobre a África (e sobre Ameríndia) significa pois questionar e desabafar crenças queridas, pressupostos afirmados e múltiplas sensibilidades" Menezes, 2007. p.56. É por isso que essas demandas encontram ainda muitas resistências nas redes de ensino, entre os professores e mesmo individuais, em cada um dos envolvidos no processo.
   Um exemplo dessa resistência ocorreu a alguns dias numa das escolas em que trabalho: Cheguei na sala dos professores e a coordenadora da escola questionava sobre "o porquê de se dar tanta importância ao trabalho com a cultura afro. Se não é mais importante na nossa escola se trabalhar a cultura italiana, polonesa..." Não me contive e perguntei: "Não será por que, por mais de 400 anos, trabalhamos como se os negros não tivessem história, cultura e por aqui nem tivessem existido?" Aguardei a réplica, mas não houve.
   É claro que nem sempre pensei assim. Também estou aprendendo a ver e sentir a necessidade de se mudar ou "descolonizar" os currículos e a escola no Brasil. Ou seja; romper com as relações de poder da cultura branca, europeia, "acadêmica" sobre as demais. E dar voz e vez àqueles que por um longo período não as tiveram, a fim de se construir uma democracia de fato com igualdade de oportunidades a todos.

Referências:
BRASIL, Diretrizes curriculares nacionais para educação das relações étnico-raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, Brasília: junho, 2005
MENEZES, Maria Paula. G - Os espaços criados pelas palavras - Racismos, etnicidades e o encontro colonial, In Gomes, Nilma Lino (Org.) Um olhar além das fronteiras:educação e relações raciais. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p.55-76

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